terça-feira, 27 de maio de 2008

Nem ligo.

Tenho mentido mais. Esquecido mais. Falsificando, dobrando e guardando no bolso dos dedos da alma tudo isso. E apodrecendo. No fim do dia metabolizo-me como um requiem, imponente e escroto. Individualista e distorcido. Isolada e imutável. Preta sem branco.
Mas talvez eu não esteja sendo sincera agora. É, acho que não.

sábado, 24 de maio de 2008


"Ah, como ela queria que não fosse de noite. Teria achado muito melhor viajar de dia, muito, muito melhor. Mas a mulher da Agência de Empregados havia dito: 'é melhor tomar o navio da tarde e, se conseguir uma cabine só para mulheres no trem, vai se sentir muito mais segura do que se fosse dormir em um hotel estrangeiro.' (...) Quatro horas e meia da madrugada. Uma luz azul e fria banhava o vidro das janelas. Agora, ao desembaçar um pedaço, ela conseguiu perceber trechos de campos brilhantes, um amontoado de casas brancas como cogumelos, uma estrada que parecia 'um quadro', com choupos alinhados de cada lado, o fio de um riacho..."


sobre Fräulein, de A Pequena Governanta- Marguerite Duras.

Um daqueles feriados.

(começo) Sol caindo lá fora. Sem vizinhos, o ouvido é eco único.
O sofá de tom pastel e o chão um pouco mais escuro. Calça jeans e blusa branca.
Ele caiu cansado após ligar o som.
E, cansado, desistiu da música. E, vocês sabem, também cansado, suspirou.
Então foi morrer um pouco.
Deitou de leve a cabeça em seu braço gelado e ficou.E ficou.
Era uma tarde simples, eu já devo ter dito isso.
E uma narrativa também cansada de simples.

(meio) A porta se abriu; ela chegou.

(fim) Chegou trazendo sua calça jeans e sua blusa também branca.
Pois que se despiram: Tanto branco, que tanto faz. Tanta paz, que tanto fez.
Traços de um antigo amor, relampejaram.
Apagam-se as luzes, rasgam-se os panos.
Os gatos rosnam, cantando um som magnífico, quase deus.
Espalha-se o cabelo da moça, expõe-se o peito do moço.
Espalha-se o desejo do moço, expõe-se o grito da moça.
O Sol se põe. Dançam-se os gatos.
As flores murcham de calor. Os dois murcham de calor.
Faz-se sexo. Faz-se, Amor, calar. Calor.


(imagem de Julie Pilke, em Gérrard: www.gerrard.no)

quarta-feira, 21 de maio de 2008

E um menino que aos meus doze não lavava os cabelos acaba de suicidar, aos vinte,
enforcado como os ídolos.
E a menina da bolsa grande, reluzente, cantarola músicas inglesas
no ônibus que a leva para a casa do pais.
Mães e pais aflitos tentam se esquecer dos filhos, reproduzindo.
Deixam quente a cama, a chama.
Talvez ali, no íntimo do íntimo onde os seres se amam (se amam-prazer-amam),
alguma coisa pode ser explicada. Alguma coisa pode ser entendida... dessa vida.

sábado, 3 de maio de 2008

If you are feeling Sinister


inevitavelmente ele chegava à varanda da casa, todo dias às cinco,e se debruçava no portãozinho que dava de frente para os carros que passavam a todo vapor. quase que os engolia.

e aí ele, se sentindo todo levado e moleque, gritava: -mamãe quer que eu me case!

ó, sim, aquele homenzarrão de vinte e cinco nadando sobre as rosas do lençol que aquela que inventou de colocá-lo ao mundo fazia questão de estender com a delicadeza que só têm os possuidores de mãos lisas. e o medo da roupa branca, do véu escorrendo dentro do seu estômago.

e então ele se ria, se mijava só de pensar na possibilidade de mais uma vez seus pais chamarem a dona Moça à casa deles afim de conhecer suas peculiaridades. ela veria os sapatos desarrumados na lavanderia e no chão do quarto; ela veria os maxilares da família tremendo, uníssoros, sinistros como só o sotão da casa cnseguida sê-lo; ela veria seus pés errantes pisando no vestido enquanto dançavam o réquiem das horas de domingo; veria o engolir das comidas (eram todos sapos, todos sapos. uma família inteirinha de sapos!); veria o coro despreparado e a desafinação de seus companheiros em música, Os Alcalinos. oh, decerto ele nunca se casaria com Magdalena, a Moça. e principalmente ELA nunca se casaria com ele.

e a mamãe ainda quer que eu me case, todo dias, às cinco.