Te encontro na praça
marcamos na praça
a outra praça, sem marcas já
mas marcada, agora.
Te amo na praça, te amo em casa.
é uma pena
a história
cheia de esquinas
dolorosas
para o nosso ventre.
cheia de palavras
perdidas
da linha-regra,
da linha-rica.
cheia de ciganos
adivinhando
a desgraça
que é mãe
do meu desespero.
quarta-feira, 23 de julho de 2008
Esgóto.

Uma vez por semana ele colocava o ralo no balde para lavar.
Uma vez por semana ele se sentava com as pernas
coladas no balde d'água, era só água o mundo.E êxtase.
As amantes vinham e eles se deitavam naquele mesmo chão,
elas encaravam o ralo na hora da copulação
a dizer gemidos infelizes e realizadores.
O ralo sabia, ele bem sabia, de todo o vermelho,
das roupas, dos pés a corações.
Encarar o ralo quando ao dizer ai
e terminar sem fim a história dos azulejos.
Escorrer, voltar, insetos, cabelos, enfim, pequenos deuses.
Enfatizar a vida púrpura dos canos.
Tapete nenhum abrevia por completo a poeira, o cisco
que engrandece engrandece e de tão sujo
é lambido pelas águas geladas.
Chegar do orgasmo limpo de conceitos.
Não me entenda, me seja.
terça-feira, 15 de julho de 2008
Sou assim, toda feita de você agora.Ouço Thuatha de Dannan, vou mergulhando no cantar das flautas e no tocar dos tambores, que ecoam junto com nossas vozes, estas ressonantes nos ouvidos dos corpos. As saias rodam, mesmo quando o movimento permitido é pouco. E também giramos muito, até parados. Borboletas no estômago, fantasias na boca, enrolar de passos. Vamos arrancando as pedras da estrada a dois, e jogando-as para o alto afim de furar o azul. Perfurar os terços, os olhos, o corpo, enfim. Perfurar tudo com o desejo. Não esperamos: Afim de voar já foi dado o grito.
segunda-feira, 14 de julho de 2008
domingo, 13 de julho de 2008
Janelas dos olhos da janela dos olhos da alma...

Eu não poderia deixar de escrever sobre Evgen Bavcar, fotógrafo francês cego.
Até onde vão os olhos, e quando é que a visão passa a sair de dentro, não sendo somente pupilar e sim espiritual? Bavcar retira de dentro de si a fotografia que vê e sente.
O conheci em um documentário dirigido por Walter Carvalho e João Jardim.
Vários artistas participaram, e além de Bavcar, para mim se destacou Wim Wender, cineasta, pois dizia algo sobre as obras atuais, tevê e filmes principalmente, serem muralhas. Quando era criança, o que o fazia crescer era pegar um livro e poder adentrar nas entrelinhas, estar realmente livre para se sentir o personagem. Os filmes western, conhecidos faroeste, tinham também essa janela. Você se sentia o protagonista, e sofria e se alegrava de verdade com o filme. Hoje não, tudo acontece de uma forma tão rápida e fechada que te impossibilita de penetrar.
De pouca coisa eu, Amanda, preciso. Aprendi a me imaginar como flor, herói, gótica, gato, amante e também mulher. Bavcar era tudo sem ver.
Uma das vontades que sempre tive é usar óculos. Quando era pequena, precisei.
E o dia em que fui ao oculista e ele disse "Sim!" tenho aqui na memória. Posso descrevê-lo em traços, em cores, em gente, em lugar, enfim, não perdi a sensação. Óculos deve enquadrar tudo e quando Adriana Calcanhoto diz enxergar enquadrado, penso nas velhas lentes.
Este ano fingi ter dores nos olhos mais de uma vez. Em uma delas, cheguei a ir ao médico para ouvir "Não!".
Tudo que o que avistar estar dentro, intrínseco, aprofundado. Eu chegaria a estudar melhor. Me adentrar melhor em tudo.
Às vezes leio no escuro para estragar minha visão. Não tive resultado ainda.
Pouco falei de Bavcar, enfim, prefiro que vejam.
Existe um lugar longe daqui onde os homens são imperdoáveis.
Lá se criam porcos e se come com as mãos.
Tem criança, mas niguém vê. Estão cobertas de barro.
O diálogo não é servidão da casa, os olhares dizem mais.
As paredes são das traças. A varanda é do vento.
Bonecas são dos meninos,
as meninas têm pintinho nas mãos e no meio das pernas.
As aves que por lá passam fedem.
O pai é gordo, a mãe é doida.
Mas nunca houve, em toda a vizinhança,
nenhum grito ou sinal de mau trato.
Eles, enfim, não têm vizinhos.
quinta-feira, 10 de julho de 2008
Cansei
Quando eu crescer, quero ser criança.
Dia-a-dia eu já tenho e basta, dinheiro eu arrumo.
Responsável sou desde os ensinamentos.
Sorriso eu já perdi nas escolas,
Amigos apaguei por me serem diferentes.
Aprender já aprendi com esforço mútuo e muito.
Nas lacunas esperei o raiar do dia
Não para observar ou sentir, mas para enfrentar o próximo que vem.
É, também já fui tímida esperando que dessem o primeiro passo, enfim.
Quando eu crescer quero ser mais criança.
Dar logo um empurrão nessa vidinha besta que eu tenho.
Dia-a-dia eu já tenho e basta, dinheiro eu arrumo.
Responsável sou desde os ensinamentos.
Sorriso eu já perdi nas escolas,
Amigos apaguei por me serem diferentes.
Aprender já aprendi com esforço mútuo e muito.
Nas lacunas esperei o raiar do dia
Não para observar ou sentir, mas para enfrentar o próximo que vem.
É, também já fui tímida esperando que dessem o primeiro passo, enfim.
Quando eu crescer quero ser mais criança.
Dar logo um empurrão nessa vidinha besta que eu tenho.
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