sábado, 3 de maio de 2008

If you are feeling Sinister


inevitavelmente ele chegava à varanda da casa, todo dias às cinco,e se debruçava no portãozinho que dava de frente para os carros que passavam a todo vapor. quase que os engolia.

e aí ele, se sentindo todo levado e moleque, gritava: -mamãe quer que eu me case!

ó, sim, aquele homenzarrão de vinte e cinco nadando sobre as rosas do lençol que aquela que inventou de colocá-lo ao mundo fazia questão de estender com a delicadeza que só têm os possuidores de mãos lisas. e o medo da roupa branca, do véu escorrendo dentro do seu estômago.

e então ele se ria, se mijava só de pensar na possibilidade de mais uma vez seus pais chamarem a dona Moça à casa deles afim de conhecer suas peculiaridades. ela veria os sapatos desarrumados na lavanderia e no chão do quarto; ela veria os maxilares da família tremendo, uníssoros, sinistros como só o sotão da casa cnseguida sê-lo; ela veria seus pés errantes pisando no vestido enquanto dançavam o réquiem das horas de domingo; veria o engolir das comidas (eram todos sapos, todos sapos. uma família inteirinha de sapos!); veria o coro despreparado e a desafinação de seus companheiros em música, Os Alcalinos. oh, decerto ele nunca se casaria com Magdalena, a Moça. e principalmente ELA nunca se casaria com ele.

e a mamãe ainda quer que eu me case, todo dias, às cinco.



sábado, 26 de abril de 2008

Lealdade



se não gritei, amor, na despedida,
foi por pura vaidade.
Os corpos se lançando à terra
sem perdão, sem paixão.

Agora que volto, peço abrigo
pedaço de pão, roupa lavada
(Casa comigo?)

Dançaremos amanhã, vá guardar teu vestido
que é pra não amassar enquanto estivermos dormindo.
dormindo...
(pintura de Marc Chagall)

sábado, 19 de abril de 2008

Um passeio ao Horto atingido pela calma que é o que é sincero ao ser.

Da última vez vim e encontrei-o. Cortei-me.
Hoje, depois de meses contando as horas no dedo, retorno mas sabendo que já não encontrarei mais ninguém. Verei formigas rolando por sobre o tapete verde, mas não atrapalharei o fluxo. Havendo sorriso, haveria fala. Mas não há. Há vento, há falta.
Somente olho. Olho tudo e (trans)vejo. Estou surda e quase muda de tão cega.

Daqui detrás do muro branco, velho e inexistente pois o criei literário e sem valor, vejo um casal. Eles estão vestidos de preto e se escondem por entre vitórias, régias. São altos, absurdos e agora são brancos, alheios.
Vejo que dão as mãos e começam a se enrolar. Acho que flutuam. Desejo também a mão que os toca, o corpo que é tocado. O Abraço que dão faz vento mim. Mais vento, sempre. E o único toque que reconheço e finjo fazer é do cabelo se enlaçando nos laços azuis presos aos meus dedos.

Faz dias que ouvi um grito: você está sumindo,apareça! mas eu não soube distinguir de onde vinha e botei a culpa em mim, para ser fácil. E agora vejo as pessoas me negligenciando e não sei o porquê. Deve ser a surdez, aumentando.

Vejo algas à minha volta e meus pés estão se dobrando.
Cheios de nós, os meus dedos. Mas nem ligo, desconectada. (Morrer no lago verde...)
Como foi que perdi os braços assim, tão de repente e calma, doendo pouco e tão agudo era o grito que vinha das árvores. Não me comparei mais a nada: e o cotidiano complicou-se. A natureza, gelada. Curvas.

Cheia de reticentes à cabeça, vou pluralizando os sentidos: quando foi a última vez em que escrevi? Ouvidos povoam minha dúvida mas erram sempre a mira. Estou esquivada, eternamene.
Me ligaram em algum laboratório, dentro de um câncer, abaixo de uma teia.
Sei que não é a morte ainda, tão calmo o que sinto.

Pulei
na
á
g
u
a
ver
de.

...Ufa.

sábado, 22 de março de 2008

Espelho, espelho meu...


existe alguém que seja como eu?


segunda-feira, 10 de março de 2008

Curta Metragem


Simone Spoladore, apaixonada por dança. Bailarina desde os seis anos de idade. Atriz desde o treze. Moça-mulher-menina. Agora Alice.



sábado, 9 de fevereiro de 2008

Coleções.

Dia-chuva resolvi subir ao telhado de minha casa.
Achei um velho casal japonês, de pedras e de rugas.
Decidi não fechar os olhos ao descer pela escada.
Pensei: uma invenção artesanal lá pros lados da orientalidade, antiga como os que se foram.
Criação de uma tarde sem rumo. Feitio de quem possui o dom e o bom da imaginação.
Da escultura caíam cinzas, e tentei colori-las de tinta vermelha. Falhei.
Poli, dei vida e água pro corpo que restou. Falhou.

A força sumiu e o mês de junho, esse sim, foi um desmaio lento da minha Arte.
O cinza da chuva engroussou no outro dia.
Desliguei os fios do telefone.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Curiosa-Idade

Maria Carla nasceu em lugar triste.
Sua mãe, Sofia Copolla, rica, fundou a escola.
O uniforme cobria seus pequenos e ainda virgens peitos.
Quando o tirava para tomar banho, se sentia alegre, moça-bonita.
Passava a mão em sua pele frágil e fértil, podendo ouvir o barulho dos pêlos ao se encostarem uns nos outros.
Desembaraçava os cílios.
E se esquecia dos curtos cabelos para poder, livre, sentir o que havia no resto do corpo.
Tremia ao fechar de leve o box e o basculante por onde entrava gente e vento. Ventava gente.
Queria entrar no espelho, descobrir o outro lado - Sem poder.
Então lambia sua imagem.
Olhos fundos, os da menina triste. Olhos de água.
Água que esparramava pelo corpo com querer.
E se inclinava para sentir.
Desejou ser chuva. Não pôde. Foi Sol.
Não querendo ser Carla, foi Clara.
Amante de Homens e Esquecida dos pais.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Liturgia na palavra.

Há tempos são verbos que matam a fome dos fiéis.
Agradecimento ao não contentável, momentos antes.
Deus todo poderoso, eu mato, peco, morro, ódio.
Ele finge, mente, passa, desama.
Tu ouve, ouve, ouve...
ouve?
Liturgia crua dos meus dizeres, minhas preces.
estou de ouvidos postos e cadê a palavra tua?
bela palavra sobre a mesa. pão?

Vou acreditar.
está vendo como acredito?
olha, meu irmão, olha pra mim.
Larga logo o espaço.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Luzes da Saudade

no dia que está a chegar, o tempo de praça terá fim. e ficarão as sombras das árvores,
as sombras das roupas e do exagero, o banco que batizamos de sombra.
ficarão, no chão, as folhas de árvore dum outono próximo,
no ciclo das estações que não pára.
ficará a grama menos verde. menos viva.
os postes, eu vejo da janela de casa, amarelados de rugas.
e as crianças, que não nós,
continuarão a correr. outras crianças/as mesmas.

e numa cidade longe, numa casa desprovida de infância,
estaremos jantando e esquecendo, cada instante mais,
a cor dos velhos vestidos.
o eco me lembra os gritos que
na infinitude cega dos homens que estamos por conhecer
se perderão sobre lençóis de camas.
Nos travesseiros estão mortas minhas alegrias.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Produto barato de entretenimento

Colher, por exemplo, é uma palavra que quase nunca se vê nos textos né?
A palavra-de-ferro, eu digo. É uso raro, acontece quando o descrito se senta à mesa para comer mamão em uma manhã de trabalho ou quando a neurótica quer remédio e o dissolve na palavra. Tão pouco em texto vagabundo e tampouco em texto real.
Já a palavra-verbo (este é o Segundo sentido) aparece, sim, nas fábulas. Moral, Moral, Moral. Normal.
Pensando bem, não sei que sentido vem primiro. A cozinha depende da plantação, decerto.
Um dia farei um texto só de colher; Do Deboche, minha ode.
E riremos quando formos à cozinha, mesa posta.
E esperaremos pela colheita dos trabalhadores, nós, a prole, ao nos sentarmos debaixo de vontiladores toda tarde para escrever e dispersar o calor.
Eu, indecisa e dependente, esperando pela inspiraão surreal que não enche barriga.