domingo, 13 de julho de 2008
Existe um lugar longe daqui onde os homens são imperdoáveis.
Lá se criam porcos e se come com as mãos.
Tem criança, mas niguém vê. Estão cobertas de barro.
O diálogo não é servidão da casa, os olhares dizem mais.
As paredes são das traças. A varanda é do vento.
Bonecas são dos meninos,
as meninas têm pintinho nas mãos e no meio das pernas.
As aves que por lá passam fedem.
O pai é gordo, a mãe é doida.
Mas nunca houve, em toda a vizinhança,
nenhum grito ou sinal de mau trato.
Eles, enfim, não têm vizinhos.
quinta-feira, 10 de julho de 2008
Cansei
Quando eu crescer, quero ser criança.
Dia-a-dia eu já tenho e basta, dinheiro eu arrumo.
Responsável sou desde os ensinamentos.
Sorriso eu já perdi nas escolas,
Amigos apaguei por me serem diferentes.
Aprender já aprendi com esforço mútuo e muito.
Nas lacunas esperei o raiar do dia
Não para observar ou sentir, mas para enfrentar o próximo que vem.
É, também já fui tímida esperando que dessem o primeiro passo, enfim.
Quando eu crescer quero ser mais criança.
Dar logo um empurrão nessa vidinha besta que eu tenho.
Dia-a-dia eu já tenho e basta, dinheiro eu arrumo.
Responsável sou desde os ensinamentos.
Sorriso eu já perdi nas escolas,
Amigos apaguei por me serem diferentes.
Aprender já aprendi com esforço mútuo e muito.
Nas lacunas esperei o raiar do dia
Não para observar ou sentir, mas para enfrentar o próximo que vem.
É, também já fui tímida esperando que dessem o primeiro passo, enfim.
Quando eu crescer quero ser mais criança.
Dar logo um empurrão nessa vidinha besta que eu tenho.
sexta-feira, 20 de junho de 2008
Pacto Maldito
vida e morte eu vejo e transvejo:
vida e morte em tudo
muito aduba e permanece _adubando/adubado
outros esquecem do jogo e vão se acabar
zumbi múmia e gente
tudo junto
se roendo se comendo
escravos da vida limitada.
vida e morte em tudo
muito aduba e permanece _adubando/adubado
outros esquecem do jogo e vão se acabar
zumbi múmia e gente
tudo junto
se roendo se comendo
escravos da vida limitada.
sábado, 7 de junho de 2008
A poesia rima pouco e expande mais
Já tentei croché
Já tentei tricô
Já fiz pão e fiz teatro.
Entrei pra esquerda,
cutuquei o partido;
Fiz bolo e artesanato.
Tentei de tudo, tentei de nada.
Fui Zé Ninguém e dona-de-casa.
Já dormi sonhando reis,
Já dormi sonhando putas,
amantes de Sol, amantes de Lua.
Mas não me encaixei em nada
E fui ser coringa no meio da rua.
Já tentei tricô
Já fiz pão e fiz teatro.
Entrei pra esquerda,
cutuquei o partido;
Fiz bolo e artesanato.
Tentei de tudo, tentei de nada.
Fui Zé Ninguém e dona-de-casa.
Já dormi sonhando reis,
Já dormi sonhando putas,
amantes de Sol, amantes de Lua.
Mas não me encaixei em nada
E fui ser coringa no meio da rua.
terça-feira, 27 de maio de 2008
Nem ligo.
Tenho mentido mais. Esquecido mais. Falsificando, dobrando e guardando no bolso dos dedos da alma tudo isso. E apodrecendo. No fim do dia metabolizo-me como um requiem, imponente e escroto. Individualista e distorcido. Isolada e imutável. Preta sem branco.
Mas talvez eu não esteja sendo sincera agora. É, acho que não.
Mas talvez eu não esteja sendo sincera agora. É, acho que não.
sábado, 24 de maio de 2008
"Ah, como ela queria que não fosse de noite. Teria achado muito melhor viajar de dia, muito, muito melhor. Mas a mulher da Agência de Empregados havia dito: 'é melhor tomar o navio da tarde e, se conseguir uma cabine só para mulheres no trem, vai se sentir muito mais segura do que se fosse dormir em um hotel estrangeiro.' (...) Quatro horas e meia da madrugada. Uma luz azul e fria banhava o vidro das janelas. Agora, ao desembaçar um pedaço, ela conseguiu perceber trechos de campos brilhantes, um amontoado de casas brancas como cogumelos, uma estrada que parecia 'um quadro', com choupos alinhados de cada lado, o fio de um riacho..."
sobre Fräulein, de A Pequena Governanta- Marguerite Duras.
Um daqueles feriados.
(começo) Sol caindo lá fora. Sem vizinhos, o ouvido é eco único.
(imagem de Julie Pilke, em Gérrard: www.gerrard.no)
O sofá de tom pastel e o chão um pouco mais escuro. Calça jeans e blusa branca.
Ele caiu cansado após ligar o som.
E, cansado, desistiu da música. E, vocês sabem, também cansado, suspirou.
Então foi morrer um pouco.
Deitou de leve a cabeça em seu braço gelado e ficou.E ficou.
Era uma tarde simples, eu já devo ter dito isso.
E uma narrativa também cansada de simples.
(meio) A porta se abriu; ela chegou.
(fim) Chegou trazendo sua calça jeans e sua blusa também branca.
Pois que se despiram: Tanto branco, que tanto faz. Tanta paz, que tanto fez.
Traços de um antigo amor, relampejaram.
Apagam-se as luzes, rasgam-se os panos.
Os gatos rosnam, cantando um som magnífico, quase deus.
Espalha-se o cabelo da moça, expõe-se o peito do moço.
Espalha-se o desejo do moço, expõe-se o grito da moça.
O Sol se põe. Dançam-se os gatos.
As flores murcham de calor. Os dois murcham de calor.
Faz-se sexo. Faz-se, Amor, calar. Calor.
(imagem de Julie Pilke, em Gérrard: www.gerrard.no)quarta-feira, 21 de maio de 2008
E um menino que aos meus doze não lavava os cabelos acaba de suicidar, aos vinte,
enforcado como os ídolos.
E a menina da bolsa grande, reluzente, cantarola músicas inglesas
no ônibus que a leva para a casa do pais.
Mães e pais aflitos tentam se esquecer dos filhos, reproduzindo.
Deixam quente a cama, a chama.
Talvez ali, no íntimo do íntimo onde os seres se amam (se amam-prazer-amam),
alguma coisa pode ser explicada. Alguma coisa pode ser entendida... dessa vida.
enforcado como os ídolos.
E a menina da bolsa grande, reluzente, cantarola músicas inglesas
no ônibus que a leva para a casa do pais.
Mães e pais aflitos tentam se esquecer dos filhos, reproduzindo.
Deixam quente a cama, a chama.
Talvez ali, no íntimo do íntimo onde os seres se amam (se amam-prazer-amam),
alguma coisa pode ser explicada. Alguma coisa pode ser entendida... dessa vida.
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