sábado, 9 de fevereiro de 2008

Coleções.

Dia-chuva resolvi subir ao telhado de minha casa.
Achei um velho casal japonês, de pedras e de rugas.
Decidi não fechar os olhos ao descer pela escada.
Pensei: uma invenção artesanal lá pros lados da orientalidade, antiga como os que se foram.
Criação de uma tarde sem rumo. Feitio de quem possui o dom e o bom da imaginação.
Da escultura caíam cinzas, e tentei colori-las de tinta vermelha. Falhei.
Poli, dei vida e água pro corpo que restou. Falhou.

A força sumiu e o mês de junho, esse sim, foi um desmaio lento da minha Arte.
O cinza da chuva engroussou no outro dia.
Desliguei os fios do telefone.

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Curiosa-Idade

Maria Carla nasceu em lugar triste.
Sua mãe, Sofia Copolla, rica, fundou a escola.
O uniforme cobria seus pequenos e ainda virgens peitos.
Quando o tirava para tomar banho, se sentia alegre, moça-bonita.
Passava a mão em sua pele frágil e fértil, podendo ouvir o barulho dos pêlos ao se encostarem uns nos outros.
Desembaraçava os cílios.
E se esquecia dos curtos cabelos para poder, livre, sentir o que havia no resto do corpo.
Tremia ao fechar de leve o box e o basculante por onde entrava gente e vento. Ventava gente.
Queria entrar no espelho, descobrir o outro lado - Sem poder.
Então lambia sua imagem.
Olhos fundos, os da menina triste. Olhos de água.
Água que esparramava pelo corpo com querer.
E se inclinava para sentir.
Desejou ser chuva. Não pôde. Foi Sol.
Não querendo ser Carla, foi Clara.
Amante de Homens e Esquecida dos pais.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

Liturgia na palavra.

Há tempos são verbos que matam a fome dos fiéis.
Agradecimento ao não contentável, momentos antes.
Deus todo poderoso, eu mato, peco, morro, ódio.
Ele finge, mente, passa, desama.
Tu ouve, ouve, ouve...
ouve?
Liturgia crua dos meus dizeres, minhas preces.
estou de ouvidos postos e cadê a palavra tua?
bela palavra sobre a mesa. pão?

Vou acreditar.
está vendo como acredito?
olha, meu irmão, olha pra mim.
Larga logo o espaço.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Luzes da Saudade

no dia que está a chegar, o tempo de praça terá fim. e ficarão as sombras das árvores,
as sombras das roupas e do exagero, o banco que batizamos de sombra.
ficarão, no chão, as folhas de árvore dum outono próximo,
no ciclo das estações que não pára.
ficará a grama menos verde. menos viva.
os postes, eu vejo da janela de casa, amarelados de rugas.
e as crianças, que não nós,
continuarão a correr. outras crianças/as mesmas.

e numa cidade longe, numa casa desprovida de infância,
estaremos jantando e esquecendo, cada instante mais,
a cor dos velhos vestidos.
o eco me lembra os gritos que
na infinitude cega dos homens que estamos por conhecer
se perderão sobre lençóis de camas.
Nos travesseiros estão mortas minhas alegrias.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Produto barato de entretenimento

Colher, por exemplo, é uma palavra que quase nunca se vê nos textos né?
A palavra-de-ferro, eu digo. É uso raro, acontece quando o descrito se senta à mesa para comer mamão em uma manhã de trabalho ou quando a neurótica quer remédio e o dissolve na palavra. Tão pouco em texto vagabundo e tampouco em texto real.
Já a palavra-verbo (este é o Segundo sentido) aparece, sim, nas fábulas. Moral, Moral, Moral. Normal.
Pensando bem, não sei que sentido vem primiro. A cozinha depende da plantação, decerto.
Um dia farei um texto só de colher; Do Deboche, minha ode.
E riremos quando formos à cozinha, mesa posta.
E esperaremos pela colheita dos trabalhadores, nós, a prole, ao nos sentarmos debaixo de vontiladores toda tarde para escrever e dispersar o calor.
Eu, indecisa e dependente, esperando pela inspiraão surreal que não enche barriga.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

domingo, 9 de dezembro de 2007

Exposição.

Sobretudo me resta o medo de escrever.
Medo de que leiam minhas comparações desprovidas de sentido, pois aí moram os fantasmas que têm na ponta da língua toda a trajetória reveladora de minhas noites mal dormidas aos meus dias sonolentos. São estes mesmos fantasmas que, aparentemente bondosos, sentem de malgrado o gosto de pendurar minha cara em um varal exposto ao mundo indigno para que percebam os mínimos defeitos e imperfeições escondidos pela medianidade dos meus atos (meu sorriso apaziguador disfarça tanto...).
Perdoem pela sinceridade, aceitem minha sinceridade.
Mas não posso deixar de escrever, eis o porém.
Talvez eu só esteja inventando estas palavras e combinando-as com outras para não ter de sentir tão profundamente o corte que me abriria a pele e mostraria... mostrar? O quê e a quem? Não existe especificidade, mas se o verbo insiste em ser transitivo: mostra-me inteira, e a tudo. A tudo e inteira.
Ah, se existissem esconderijos para os erros...E se existem, favor não me ensinarem o caminho.(preciso continuar, imperfeita, assim.)

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

esvazio.
ex-vazio.
quando?

não creio.

pra quê?

um dia olhei pra vida-toda
a toda-vida mesmo:
você deve imaginar o que vi.

você não deve ver o que
imagino.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Ana e ele.

Sorvete. Rua. Idéias.

ele e Ana.

Cama. Corpo e perna.