sexta-feira, 12 de setembro de 2008

"Não se pode ter paz evitando a vida" Virg. Woolf

Não é sobre se cortar ou sobre pó para elevar ou sobre pílula para fugir. Tampouco seria sobre o fim das coisas, porque preciso de menos coragem para ir que para ficar. Escrevo mesmo é sobre a cena que preenche o espaço, este mesmo espaço controlando o tempo, varando na frente para desaguar em condições. O espaço me cria. Meu tempo aceita.
A cena imóvel nos olhos, os olhos imóveis no rosto, o rosto imóvel nas mãos. E mãos imóveis na cama. Barulho lá, silêncio aqui. Mas com uns gritinhos esparsos.
Seria sobre amor, não fosse a falta de palavras. A falta de tato... A dúvida.
Seria sobre alguém. Seria, sim, sobre mim, não fossem as tuas mãos, o afago, o escarro... Não te fosse!

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Latido de cão e briga de cão e olhar de cão na janela em que eu me debruço com o ar de loucura fatigada pela retina da luz que dá nos postes e corta a praça em preto-amarelo. No âmago do meu retiro, entre o gole de café e a aspa do cheiro na xícara do mesmo café que engulo, nesse âmago que é tambem o âmago das coisas todas, do absurdo-e-assim-vai, nesse âmago está a brevidade dos corpos. Existe uma forma de ver o caminho que é simples e doível, pouco esférica e mais reta em ruína que tudo. Essa forma é o que atormenta a noite e os latidos dos cães dentro da MINHA retina. É a forma que abusa das minhas horas vagas. A forma que come. Dá fim ao lirismo qualquer e cai de terra nos joelhos como a pedir que nasça novamente mas sem consciência agora. É a forma que sussurra: fica, menina, de olhos grandes porque acontece a história e tu deve abraçá-la porque, tá vendo, os passos são dados e os de trás da fila vão sendo arrastados, arranhados, e para fora. Tem um estado das coisas que pede para me achar porque eu posso estar perdida e não adianta: é sempre o mesmo cheiro de café.

sábado, 9 de agosto de 2008

-É muito absurdo. é realmente muito absurdo.
-O quê, o mundo né.
-É. posso ser nada, posso ser tudo. uma vez que me dispo no meio da rua, estou viva ainda. uma vez que me tranco, estou. se digo ali a loucura aqui, ainda estou. Não entedo as regras. Estou cá mas lá é tão grande mas tão grande... e o além do além é também uma possibilidade. Pensei nisso e me perdi.

(Egon Schiele)
Às vezes eu prefiro que me sejam.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Saudosismo de Eternidade.

Te encontro na praça
marcamos na praça
a outra praça, sem marcas já
mas marcada, agora.

Te amo na praça, te amo em casa.
é uma pena
a história
cheia de esquinas
dolorosas
para o nosso ventre.
cheia de palavras
perdidas
da linha-regra,
da linha-rica.
cheia de ciganos
adivinhando
a desgraça
que é mãe
do meu desespero.

Esgóto.


Uma vez por semana ele colocava o ralo no balde para lavar.
Uma vez por semana ele se sentava com as pernas
coladas no balde d'água, era só água o mundo.E êxtase.
As amantes vinham e eles se deitavam naquele mesmo chão,
elas encaravam o ralo na hora da copulação
a dizer gemidos infelizes e realizadores.
O ralo sabia, ele bem sabia, de todo o vermelho,
das roupas, dos pés a corações.
Encarar o ralo quando ao dizer ai
e terminar sem fim a história dos azulejos.
Escorrer, voltar, insetos, cabelos, enfim, pequenos deuses.
Enfatizar a vida púrpura dos canos.
Tapete nenhum abrevia por completo a poeira, o cisco
que engrandece engrandece e de tão sujo
é lambido pelas águas geladas.
Chegar do orgasmo limpo de conceitos.
Não me entenda, me seja.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Sou assim, toda feita de você agora.Ouço Thuatha de Dannan, vou mergulhando no cantar das flautas e no tocar dos tambores, que ecoam junto com nossas vozes, estas ressonantes nos ouvidos dos corpos. As saias rodam, mesmo quando o movimento permitido é pouco. E também giramos muito, até parados. Borboletas no estômago, fantasias na boca, enrolar de passos. Vamos arrancando as pedras da estrada a dois, e jogando-as para o alto afim de furar o azul. Perfurar os terços, os olhos, o corpo, enfim. Perfurar tudo com o desejo. Não esperamos: Afim de voar já foi dado o grito.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Meu pai uma vez disse assim:
-Não espere por eles.
Mas ainda sinto meu corpo a esperar, desobediente e mudo.
Eles vêm. Eles ventam. (Sou eu quem sopro?)
Eles:vão.
-Sobrevivo a mim mesma-

domingo, 13 de julho de 2008

Janelas dos olhos da janela dos olhos da alma...


Eu não poderia deixar de escrever sobre Evgen Bavcar, fotógrafo francês cego.
Até onde vão os olhos, e quando é que a visão passa a sair de dentro, não sendo somente pupilar e sim espiritual? Bavcar retira de dentro de si a fotografia que vê e sente.

O conheci em um documentário dirigido por Walter Carvalho e João Jardim.
Vários artistas participaram, e além de Bavcar, para mim se destacou Wim Wender, cineasta, pois dizia algo sobre as obras atuais, tevê e filmes principalmente, serem muralhas. Quando era criança, o que o fazia crescer era pegar um livro e poder adentrar nas entrelinhas, estar realmente livre para se sentir o personagem. Os filmes western, conhecidos faroeste, tinham também essa janela. Você se sentia o protagonista, e sofria e se alegrava de verdade com o filme. Hoje não, tudo acontece de uma forma tão rápida e fechada que te impossibilita de penetrar.

De pouca coisa eu, Amanda, preciso. Aprendi a me imaginar como flor, herói, gótica, gato, amante e também mulher. Bavcar era tudo sem ver.

Uma das vontades que sempre tive é usar óculos. Quando era pequena, precisei.
E o dia em que fui ao oculista e ele disse "Sim!" tenho aqui na memória. Posso descrevê-lo em traços, em cores, em gente, em lugar, enfim, não perdi a sensação. Óculos deve enquadrar tudo e quando Adriana Calcanhoto diz enxergar enquadrado, penso nas velhas lentes.
Este ano fingi ter dores nos olhos mais de uma vez. Em uma delas, cheguei a ir ao médico para ouvir "Não!".
Tudo que o que avistar estar dentro, intrínseco, aprofundado. Eu chegaria a estudar melhor. Me adentrar melhor em tudo.
Às vezes leio no escuro para estragar minha visão. Não tive resultado ainda.


Pouco falei de Bavcar, enfim, prefiro que vejam.



Existe um lugar longe daqui onde os homens são imperdoáveis.
Lá se criam porcos e se come com as mãos.
Tem criança, mas niguém vê. Estão cobertas de barro.
O diálogo não é servidão da casa, os olhares dizem mais.
As paredes são das traças. A varanda é do vento.
Bonecas são dos meninos,
as meninas têm pintinho nas mãos e no meio das pernas.
As aves que por lá passam fedem.
O pai é gordo, a mãe é doida.

Mas nunca houve, em toda a vizinhança,
nenhum grito ou sinal de mau trato.
Eles, enfim, não têm vizinhos.