domingo, 14 de setembro de 2008

Apare-ser.

Em ruínas sinto frio.
Nas casas alheias, desejo.
No bar explodo -veemência-
em contestação:afogar e rir.
Em casa sonho.
Nas ruas vejo
Nas portas bato
Na vida cresço.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

"Não se pode ter paz evitando a vida" Virg. Woolf

Não é sobre se cortar ou sobre pó para elevar ou sobre pílula para fugir. Tampouco seria sobre o fim das coisas, porque preciso de menos coragem para ir que para ficar. Escrevo mesmo é sobre a cena que preenche o espaço, este mesmo espaço controlando o tempo, varando na frente para desaguar em condições. O espaço me cria. Meu tempo aceita.
A cena imóvel nos olhos, os olhos imóveis no rosto, o rosto imóvel nas mãos. E mãos imóveis na cama. Barulho lá, silêncio aqui. Mas com uns gritinhos esparsos.
Seria sobre amor, não fosse a falta de palavras. A falta de tato... A dúvida.
Seria sobre alguém. Seria, sim, sobre mim, não fossem as tuas mãos, o afago, o escarro... Não te fosse!

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Latido de cão e briga de cão e olhar de cão na janela em que eu me debruço com o ar de loucura fatigada pela retina da luz que dá nos postes e corta a praça em preto-amarelo. No âmago do meu retiro, entre o gole de café e a aspa do cheiro na xícara do mesmo café que engulo, nesse âmago que é tambem o âmago das coisas todas, do absurdo-e-assim-vai, nesse âmago está a brevidade dos corpos. Existe uma forma de ver o caminho que é simples e doível, pouco esférica e mais reta em ruína que tudo. Essa forma é o que atormenta a noite e os latidos dos cães dentro da MINHA retina. É a forma que abusa das minhas horas vagas. A forma que come. Dá fim ao lirismo qualquer e cai de terra nos joelhos como a pedir que nasça novamente mas sem consciência agora. É a forma que sussurra: fica, menina, de olhos grandes porque acontece a história e tu deve abraçá-la porque, tá vendo, os passos são dados e os de trás da fila vão sendo arrastados, arranhados, e para fora. Tem um estado das coisas que pede para me achar porque eu posso estar perdida e não adianta: é sempre o mesmo cheiro de café.

sábado, 9 de agosto de 2008

-É muito absurdo. é realmente muito absurdo.
-O quê, o mundo né.
-É. posso ser nada, posso ser tudo. uma vez que me dispo no meio da rua, estou viva ainda. uma vez que me tranco, estou. se digo ali a loucura aqui, ainda estou. Não entedo as regras. Estou cá mas lá é tão grande mas tão grande... e o além do além é também uma possibilidade. Pensei nisso e me perdi.

(Egon Schiele)
Às vezes eu prefiro que me sejam.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Saudosismo de Eternidade.

Te encontro na praça
marcamos na praça
a outra praça, sem marcas já
mas marcada, agora.

Te amo na praça, te amo em casa.
é uma pena
a história
cheia de esquinas
dolorosas
para o nosso ventre.
cheia de palavras
perdidas
da linha-regra,
da linha-rica.
cheia de ciganos
adivinhando
a desgraça
que é mãe
do meu desespero.

Esgóto.


Uma vez por semana ele colocava o ralo no balde para lavar.
Uma vez por semana ele se sentava com as pernas
coladas no balde d'água, era só água o mundo.E êxtase.
As amantes vinham e eles se deitavam naquele mesmo chão,
elas encaravam o ralo na hora da copulação
a dizer gemidos infelizes e realizadores.
O ralo sabia, ele bem sabia, de todo o vermelho,
das roupas, dos pés a corações.
Encarar o ralo quando ao dizer ai
e terminar sem fim a história dos azulejos.
Escorrer, voltar, insetos, cabelos, enfim, pequenos deuses.
Enfatizar a vida púrpura dos canos.
Tapete nenhum abrevia por completo a poeira, o cisco
que engrandece engrandece e de tão sujo
é lambido pelas águas geladas.
Chegar do orgasmo limpo de conceitos.
Não me entenda, me seja.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Sou assim, toda feita de você agora.Ouço Thuatha de Dannan, vou mergulhando no cantar das flautas e no tocar dos tambores, que ecoam junto com nossas vozes, estas ressonantes nos ouvidos dos corpos. As saias rodam, mesmo quando o movimento permitido é pouco. E também giramos muito, até parados. Borboletas no estômago, fantasias na boca, enrolar de passos. Vamos arrancando as pedras da estrada a dois, e jogando-as para o alto afim de furar o azul. Perfurar os terços, os olhos, o corpo, enfim. Perfurar tudo com o desejo. Não esperamos: Afim de voar já foi dado o grito.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Meu pai uma vez disse assim:
-Não espere por eles.
Mas ainda sinto meu corpo a esperar, desobediente e mudo.
Eles vêm. Eles ventam. (Sou eu quem sopro?)
Eles:vão.
-Sobrevivo a mim mesma-

domingo, 13 de julho de 2008

Janelas dos olhos da janela dos olhos da alma...


Eu não poderia deixar de escrever sobre Evgen Bavcar, fotógrafo francês cego.
Até onde vão os olhos, e quando é que a visão passa a sair de dentro, não sendo somente pupilar e sim espiritual? Bavcar retira de dentro de si a fotografia que vê e sente.

O conheci em um documentário dirigido por Walter Carvalho e João Jardim.
Vários artistas participaram, e além de Bavcar, para mim se destacou Wim Wender, cineasta, pois dizia algo sobre as obras atuais, tevê e filmes principalmente, serem muralhas. Quando era criança, o que o fazia crescer era pegar um livro e poder adentrar nas entrelinhas, estar realmente livre para se sentir o personagem. Os filmes western, conhecidos faroeste, tinham também essa janela. Você se sentia o protagonista, e sofria e se alegrava de verdade com o filme. Hoje não, tudo acontece de uma forma tão rápida e fechada que te impossibilita de penetrar.

De pouca coisa eu, Amanda, preciso. Aprendi a me imaginar como flor, herói, gótica, gato, amante e também mulher. Bavcar era tudo sem ver.

Uma das vontades que sempre tive é usar óculos. Quando era pequena, precisei.
E o dia em que fui ao oculista e ele disse "Sim!" tenho aqui na memória. Posso descrevê-lo em traços, em cores, em gente, em lugar, enfim, não perdi a sensação. Óculos deve enquadrar tudo e quando Adriana Calcanhoto diz enxergar enquadrado, penso nas velhas lentes.
Este ano fingi ter dores nos olhos mais de uma vez. Em uma delas, cheguei a ir ao médico para ouvir "Não!".
Tudo que o que avistar estar dentro, intrínseco, aprofundado. Eu chegaria a estudar melhor. Me adentrar melhor em tudo.
Às vezes leio no escuro para estragar minha visão. Não tive resultado ainda.


Pouco falei de Bavcar, enfim, prefiro que vejam.